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Há uma mesa de madeira esculpida à mão, sobre ela descansa a bela toalha de linho branco, bordada por outra mão desconhecida, nesse tecido estão pousados delicadamente as xícaras de porcelana chinesa, a caixa de chás importados, os guardanapos de pano e o pequeno açucareiro de prata. Nesse objeto, além da doçura, existe um campo de batalha. As pequenas terroristas atravessam mares, escalam montanhas e muitas vezes adentram o território se fartando com os cristais de açúcar. Num ritual semanal, com uma pinça, a mulher retira as formigas e as esmaga, uma a uma.

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Moscas

 

Desconhecidos se aproximam defendendo sermos uma versão melhorada daqueles que nos cercam. Perguntam detalhes de como atingir a superação da posse existente em quase todos os acordos usuais, começo a defender as teorias estudadas enquanto inflo meu ego com uma vaga certeza de que sim, estou no topo de uma cadeia emocional, que as fissuras camufladas são partes irrelevantes quando se acredita que existe algo maior a poucos metros de você. Desejo passar impassível dentro dessas frestas que eu mesma cavo. Me protejo, dividindo em diversos pedaços que dou aos dois amantes e diariamente reafirmo na frente do espelho que não sou proprietária de ninguém, que tenho que aceitar o livre acesso, que é possível comungar o amor com mais de uma pessoa.


Tenho de admitir que no início eu gostava de ver os humanóides vidrados na nossa matemática, descrentes e chocados por três pessoas se beijarem em público, andarem de mãos dadas, comemorarem o dia dos namorados num restaurante. Será que poderíamos nos classificar dessa maneira? De certo a palavra não abarcava o que éramos, talvez fossemos uma tríade que tinha se colocado disponível para experimentar algo que ainda não tinha passado com nenhum de nós, o que pra mim já parecia ser razão suficiente para seguirmos adiante. Há moscas que sobrevoam a minha ceia, elas mostram os dentes através de sorrisos, risadas e gentilezas. Desejam pousar no banquete, acreditam que o jantar está servido para qualquer um, os amigos dos amigos dos amigos. Assemelha o que passávamos quando éramos duas, mas, neste momento, a coisa é ainda mais incisiva, sobrepondo todas as normas vigentes, grau de intimidade e faixa etária. O mundo quer um pedaço, se misturar um pouco, aproveitar a entrada franca. É estranha a intimidade com que os outros tentam se embrenhar entre nós, talvez eu tenha uma espécie de pudor que me faz achar meio descabida as investidas recebidas pelos que nos cercam, e definitivamente a conjuntura não me agrada, já os meus companheiros parecem não se importar com o crescente assédio.


Os três corpos juntos acendem o incenso luxurioso que entorpece as narinas sedentas. Ela distribuí olhares periféricos, principalmente aos homens, o que não estremece a minha profunda nitidez de que jamais perderei essa mulher para alguém de sexo que se difere do meu. Já Ele estufa o peito tal qual um galo de briga e desfila o poder de ter duas fêmeas ali à disposição, enquanto os demais machos demonstram a inveja clássica e querem comer as migalhas deixadas nas proximidades. Outras mulheres também ciscam no terreno sem cerca, e é em face delas que o meu temor aumenta. Assumo o ciúme que me ocorre em relação as minhas iguais por conhecer a evidente competição em que fomos concebidas, o veneno derramado pelo confronto que enfraquece apenas as mesmas participantes dessa guerra. Há também a crescente raiva de ouvir comentários enaltecedores a Ele somente por estar se relacionando com duas mulheres. Paciente, corajoso, conciliatório. É mirado como o herói na zona de risco do campo de batalha, quando, na verdade, somos nós duas que andamos nas pontas dos pés em cima do viaduto mais alto da cidade. 

Classificação indicativa: 18 anos

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