Classificação indicativa: 18 anos

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Duas crianças e um brinquedo. É uma gangorra de madeira com a pintura desgastada na qual as meninas estão sentadas. Em cada polo, um banco. Em cada banco, uma delas. Realizando movimentos alternados, entre as extremidades, de baixo para cima e vice-versa, as duas se deliciam com o balanço. Elas não competem, apenas passam o tempo. É necessário companhia para usar tal instrumento, sendo a gangorra não recomendada para solitários.

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A três

 

Nos encontramos no constante improviso inevitável que a novidade nos traz. Tentamos analisar prematuramente as miudezas que foram espalhadas pelo ambiente, confidenciamos os sentimentos descobertos e parecemos ainda mais fortes, conhecedoras de outras partes de nós. Admitimos o medo de perder uma a outra e também o quanto Ele sabe trepar gostoso. Percebemos que a presença dele retoma a vontade de estarmos ainda mais juntas. É um novo brinquedo que faz a gente experimentar outros movimentos, descobrir pontos ainda não vistos e também desvendar o objeto recém conquistado. É sublime mergulhar na beleza da nossa intimidade, refletida nos olhos de uma outra pessoa. A sedução, que a princípio seria destinada ao convidado, se expande para dentro da nossa relação e nos atinge com precisão certeira. O desejo dos encontros aumenta gradativamente e, logo, os jantares a três atingem uma frequência quase semanal. Eles são motes para movimentar a antiga água, parada por falta de impulso, graças ao desgaste trazido pelo também antigo cotidiano. É excitante rever a roda girar dentro da gente, esse rodopio também respinga paixão no terceiro elemento, Ele recebe o molhar suave, reflexo do aguaceiro maior que brota dentro de nós duas. Estamos novamente apaixonadas. Aninhadas, juntas a maioria do tempo, continuamos a experiência das visitas. 


Ele vem quando quer, quando queremos. Traz consigo outra personalidade, também o outro gênero. Gosto da diversidade. Sou permeada pela sensação radiante de uma possível completude. Percebo-me embriagada nas amplas doses de paixão compartilhada, estou afundada em um ciclo interminável de suposições, devaneios e ficcionalidades. Em alguns momentos, chego a supor que, com a presença masculina entre a gente, criaremos a coragem necessária para revelar a nossa antiga conjunção àqueles que compartilham os mesmos laços sanguíneos que nós, e que talvez a aceitação seja até mais provável, sabendo que há um homem no meio do caminho. A verdade é que, muitas vezes, eu sinto que estamos desprotegidas, que seremos destruídas nas próximas páginas, e que é bom, dentro do meu machismo explícito, ter a visita desse homem que pode proteger a gente, gerar um filho e cuidar do que somos. Não tem a ver apenas com o pau, com o sexo e outros derivados. Talvez esteja mais relacionado com a notória liberdade de ir e vir que eles, os homens, são acostumados a vivenciar. Essa dificílima sensação a ser alcançada após o duro adestramento que nos obriga a servir e colocar os afetos acima dos “nossos” franzinos corpos domesticados - isso tudo que ocorreu com a gente - nós, mulheres, ainda quando éramos apenas meninas. Parece que por piada, a palavra liberdade na língua portuguesa é um substantivo feminino.