Classificação indicativa: 18 anos

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Aqui algo difere. São três vias. Elas se misturam. É difícil definir o ângulo. Não há perpendiculares, teorias ou valores morais. Rasgaram o livro e a constituição. Há um triangulo escaleno e, no meio dele, o círculo coberto de flores roxas. As ruas se entrecruzam, diluídas. Luzes dançam. Supernova pulsa. Espécie de bruxaria. Sem começo ou fim. Eles abdicam os limites das retas para criar uma pequena utopia. Há um balão bucólico no centro do peito.

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Sexo

 

Nos encontramos. Teses. Romances. Coreografia inventada. Ação de agrupar as partes, de transformar os desejos em líquidos. Apta para outro corpo. Para dois corpos diferentes. Pés que ultrapassam as margens e tentam criar arranjos desconhecidos. Eu me divido para ambas as partes, a cabeça deita sobre o peito dele, os olhos dialogam com Ela, nossas mãos se encostam, selando o pacto, velhas comparsas. Eu prometo não depredar nosso patrimônio tombado e Ela sorri. Tento acalmar a respiração, Ela faz o mesmo. Podemos parar tudo, caso uma de nós solicite. E, a partir desse plano infalível, eu grudo a minha nudez tentando enlaçar ainda mais os dois. Alternamos as línguas em beijos que congregam todas as junções possíveis. O beijo dela é lânguido, o dele, vigoroso. O nosso é uma brincadeira que traz risadas pela quantidade de saliva misturada. A boca que beija duas bocas que lambe três lábios que abocanha o pau que chupa a boceta que amplia o discurso idealista de uma fábula recém escrita. Eu anoto tudo no corpo. Bate delicado.


Somos três maestros e vários instrumentos que devem ser orquestrados de forma harmônica para que a música não saia do ritmo. Talvez a parte mais difícil é entender os duos e os solos. Receber o som do outro, saber silenciar um possível ruído que desafina de repente. Por vezes, eles viram dois antigos amantes compondo pinturas rupestres desordenadas em cima de um pequenino palco, e eu, espectadora atenta, assisto o segundo ato. 


Deitados, os dois se esquentam. Pernas trançadas, respiração conjunta. Eles dormem agrupados num colchão de casal no meio da sala. Há outro colchão de solteiro vazio que também está acomodado ao lado, tentando criar uma cama que caiba a gente. Me recordo de quando eu era criança e roubava todos os lençóis da casa para trançá-los, na tentativa de construir uma outra casa - a minha - dentro daquela casa que eu já habitava, mas não me pertencia. As amarrações eram frágeis, e apesar dos constantes desmoronamentos, era divertido refazer aquelas edificações perecíveis. Assim novamente me sinto, tentando tecer os quereres dessa pirâmide que parece se formar diante dos meus olhos. 


Estou acordada, a boca seca e a boceta molhada. Aceito que a minha própria mão seja personagem central dessa parte da história. Cerro os olhos, imagino as duas línguas lambendo a poesia, alternadamente. Elas se beijam vez e outra, e as minhas pernas continuam abertas. Tento me encaixar de alguma forma nos beijos que assisto para que o apego não me desfigure. Lembro do meu corpo com agulhas fincadas por toda pele, estava febril, imóvel no sofá, deitada, quando a música deles começou. Ela gemia agudo e alto, havia o ranger da cama no chão de taco, um friccionar crescente do som das partes dos corpos que se batiam num ritmo acelerado. A paisagem sonora saía do quarto e penetrava a sala, os imensuráveis minutos criavam as possíveis posições e o meu coração fervia. Aquele amargor corroía a minha invenção fantasiosa sobre o que era um amor livre. Mas hoje é outro dia, sou eu quem manda. A órbita é composta por um sol e dois satélites: é a minha boca que tira os pedaços deles, são meus dentes que desenham tatuagens. Em cada pescoço, demarco o terreno. Depois me divido para ambos, tento sincronizar os movimentos, massageando os sexos. Os beijos deles cobrem agora os meus seios, os dedos dedilham orifícios e eles voltam e me sugam até última gota. Emaranhado de pele, de gozo. Todas as portas e alternativas. Só o tempo se apropria das peles, o resto, a liberdade abocanha. 


O chalé que estamos é de madeira, os tijolos são aparentes amenizando o frio da manhã, na lareira ainda há uma sobra de lenha que queima lentamente e a brasa alaranjada – tal como a paixão - vai perdendo o tom com o passar do tempo. Tem um quadro com um desenho geométrico numa das paredes e em outra há uma janela grande de vidro que leva para varanda também de madeira. Essa janela está fechada. Mesmo assim, eu consigo ver os montes rochosos e também o rio que reflete a luz dos primeiros raios do sol. Tomo mais um gole de vinho chileno, como alguns pedaços de salame, aproveito para transformar o que resta da noite em café da manhã. Tenho vontade de caminhar até a paisagem. Seria bom pisar na areia, sentir a água gélida, observar as cores lisérgicas no céu e quiçá agradecer a inteireza que surge no horizonte, tramado pelas mãos destemidas de um possível ser divino, mitológico, fictício. Algo me prende dentro, de modo que se eu sair daqui parece que vou perder o que realmente importa, talvez o mergulho no rio retirasse o cheiro deles do corpo ou a saliva antiga que ainda está entre as pernas, então prefiro continuar sentada na bancada, com o caderno na mão, rabiscando o instante. Logo ele parte, a gente continua.