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O homem desliza o pincel umedecido na tinta vermelho-terra e desenha a curva do quadril, depois sobe o traço pela barriga e marca a pinta que a mulher carrega ao lado esquerdo do umbigo. Continua a linha até a chegada dos seios, passa um tempo ali, criando o volume do encontro. Em seguida desenha o pescoço, o rosto e os cabelos longos e lisos. Volta para o quadril, desenha as pernas da modelo e no meio delas, risca as três linhas que dão forma geométrica ao sexo da mulher. 

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Ele

 

É no meio da queda que Ele aparece. Me oferece as mãos. Massageia o meu coração roxo. Deixo-me ser conduzida pela precisão dos movimentos, pelo olhar exato, pelas pintas marrons espalhadas. A barba dele tem duas tranças que iniciam no queixo e vão até o fim do pescoço. Vez e outra, Ele passa as mãos nas tranças e as puxa para baixo, tal qual um personagem de algum filme antigo. O gesto é suave e dá a impressão que as tranças são duas companheiras íntimas de longa data. Existe alguma estranheza que me agrada, um silêncio desafiador que atiça a gana da conquista, parece algo escondido, não sei, há uma surpresa a ser descoberta que demanda o olhar apurado de caçadora. O corpo dele é uma prancha maciça que me convida a cometer deslizes. Não que eu deseje apenas o corpo, isso seria simplório, quero o que há atrás do corpo, o destino, os sentimentos e mistérios. Isso me interessa mais. Ele pinta mulheres em aquarela e também compõe alguns sambas. É antropólogo de formação, servidor público, faz aplicações na bolsa de valores e em moedas virtuais. Apresenta a mistura excêntrica de sensibilidade rústica, conveniente boemia e materialismo selvagem. Ele gosta de dedilhar os meus cabelos com a mesma calma que se aloja na minha vida: começa aos poucos, com uma das mãos acaricia o pescoço subindo em diagonal até o centro da cabeça, deixando os meus fios longos e negros para um lado só, depois alterna a combinação. Faz a gentileza por quinze minutos e despenteia um pouco mais os meus pensamentos. Derretida, começo a tecer conjecturas. Mesmo sabendo que não há combinações sentimentais definitivas e duradoras, que elas se renovam e se desmoronam no nada por si mesmas, pela indiferença da oportunidade presente a cada hora do dia, mesmo assim, eu começo a almejar que Ele construa comigo uma outra utopia. Na quietude, a gente se beija e a energia dele penetra, transpassa por mim. Eu abro as minhas pernas e, depois, o peito. Ele começa a transformar a linha em triângulo. 

Classificação indicativa: 18 anos

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