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Há um vasto formigueiro, ele se divide em micros compartimentos transitórios, espalhados por todo amplo terreno invadido. Os tais recipientes são chamados arbitrariamente como blocos, bancos, repartições, quadras, cartórios, prédios, siglas, sorveterias, lotéricas, shoppings, farmácias, mais farmácias e também outras inúmeras farmácias. Transitam deixando e seguindo feromônios em busca de uma mesma rota segura para os alimentos idênticos. Acreditam-se organizadas apenas por seguirem umas as outras, e ainda assim, algumas se acham originais. Encontradas em todas as regiões do planeta, exceto nos polos, podem ser consideradas o grupo de animais de maior sucesso. De fato, estima-se que o peso de todas as formigas do planeta supera o peso de toda a humanidade.

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Cidade

 

Em volta de nós havia a cidade e longos espaços que tiveram sua construção esquecida. Antes, essa peculiaridade urbana me irritava. Eu desejava uma multidão de sons, mas depois entendi que aqui, apesar de respirar um deserto seco, eu estava envolta de horizontes. Havia uma dádiva nessa arquitetura que exaltava as ausências, mesmo que essas sejam meticulosamente planejadas. É como um pássaro preso a vida toda numa gaiola. Ele voa dentro de um cubículo, com espaço suficiente apenas para que ele não desaprenda a bater as asas, nessa mesma prisão aumenta ainda mais o desejo dele de alcançar o infinito. O pássaro recebe comida diariamente. Nesse ritual, ele calcula a fuga medindo todos os passos numa compulsão neurótica. Um dia, a algoz tropeça e ele se atira, ela tenta agarrá-lo com as mãos, mas o pássaro já está entorpecido de liberdade. Foi assim que os espaços vazios da cidade me convenceram que aqui era o melhor lugar para se estar. Clarão no meio das urbes. Há outra pessoa sentada, também é uma mulher e, apesar do mesmo local, nós estamos sozinhas. Um campo seco com traves de futebol, sem nenhum time jogando. Outras pessoas passam, criando um risco na grama cinza e quase morta, elas instalam vontades latentes em seus caminhos ao mesmo tempo em que pisam nas flores amarelas caídas, sem considerar qualquer lembrança da primavera. Alguns cachorros levam seus donos para passear, os que conseguem se soltar interagem, diferentemente dos humanos que continuam impassíveis. Um ônibus verde descarrega vários homens verdes que seguem em uma quase fila: o tom da cor se confunde com a vegetação que define a quadra. A marcha dos militares independe da distância do quartel. Escutam-se mais os carros do que os pássaros. O ruído dos trajetos que vai e vem, sentidos opostos, com talvez o mesmo desejo: chegar em casa. Apesar da velocidade dos automóveis, é a lentidão do céu que me chama a atenção. Um pássaro ao pousar no galho balança a árvore e, ao sair o mesmo acontece, de forma que até a mais estrondosa das árvores tem a beleza da flexibilidade. Tiro uma foto e permito que a paisagem fale mais do que essas palavras. O celular me dá ordens: mova pra cima, mova pra baixo, mova mais devagar. As mãos anseiam em segurar quando o importante é seguir apreciando o famoso dégradé. O céu é modificado por um paraquedas que vagueia entre os tons amarelados e rosados. Existe uma leveza no seu movimento, um contraste peculiar que evidencia o prazer do risco e a certeza da queda. O paraquedas começa a desenhar sem pudor uma liberdade obscena, voa mais alto que os pássaros, o homem que corta a paisagem. 

Classificação indicativa: 18 anos

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