Classificação indicativa: 18 anos

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É necessário arrancar as ervas daninhas, que brotam incessantemente das rachaduras do vaso, e tentar restabelecer um canteiro saudável para que novamente, as duas voltem a crescer. Às vezes, a praga aparece à surdina nas noites chuvosas e faz a gente desaguar baixinho, acuada. Os rostos se misturam e, do mesmo modo, os enredos. Decerto a solidão é estar inapta dentro do próprio refúgio. 

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Cotidiano

 

Acreditávamos que a nossa junção seria interminável, e mesmo diante do que se apresentava indivisível, nos deparamos - certo dia - com a chegada de uma rotina. Foi instalado o sabor insosso na boca. A louça suja festejou aniversário na pia, o banheiro se acostumou com o mofo no rejunte, a comida ficou fria no prato rachado e o beijo de língua virou apenas um selinho apressado no primeiro período da manhã. Vez ou outra tínhamos de criar um embate para certificar que estávamos no mesmo cômodo da casa. As sentenças emudecidas atestavam o desaparecimento das pulsações vitais dos nossos corpos. Recordávamos os percursos que já haviam sido feitos inúmeras vezes. Era incômodo assistir os padrões repetidos se multiplicando entre a gente. Como isso poderia suceder com o amor de duas poetas “especiais, criativas e sensíveis”? Novamente o confronto, e dessa vez, não havia a felicidade de passar a culpa adiante, era preciso adentrar nos nossos umbigos. Tentamos, inconscientemente, nos afastar em retiros temporários, mas a dependência e as modernidades não colaboravam com a estratégia. Queríamos estar juntas o tempo inteiro, mas agora o “estar juntas” trazia também a dissimulada sensação de estagnação. O compromisso diário contribuía para o afastamento de algo que nos era valioso, a própria poesia. 


Estávamos ali, impreterivelmente, duas plantas no mesmo vaso, as raízes misturadas, os substratos, a água benta. Existia a fusão calorosa de estarmos imbuídas na intimidade, a comodidade de saber que cada solicitação seria atendida de imediato e também o prazer do pertencimento, de ter alguém pra dividir e entender as assombrosas idiossincrasias. Tudo parecia tão seguro que uma dúvida assombrava. O calor de outra pessoa, o tempo todo ao lado, também sufocava e dava a falsa impressão de que provavelmente seria melhor abrir uma fresta para receber o ar entre esses mesmos corpos e, assim, aceitar a brisa fresca do inesperado destino. Faltava espaço para que a gente pudesse crescer ainda mais. Havia a percepção da não adequação à forma engessada que nós mesmas tínhamos estabelecido vagarosamente enquanto caminhávamos, já desconfiávamos da necessidade de romper os limites confortáveis do tal seguro círculo imaginário. De maneira ingênua eu queria buscar alguma solução inovadora: recorri ao clichê mofado dos anos 70 e supliquei sua companhia. Eu poderia simplesmente me colocar disponível para ser rodopiada sozinha por ventos imprevisíveis de um furacão criado pelas minhas próprias mãos, todavia não seria possível estar distante daquela que me fazia sentido, mesmo agora que a vida parecia seguir o script já antes visitado. Eu desejava que Ela lutasse ao meu lado dentro da batalha instaurada. Nós analisaríamos as táticas do combate, vestiríamos os uniformes e assinaríamos o tratado com sangue. A gente podia se recriar a partir do contato com outros soldados e na experiência bélica, quem sabe, nos reencontrarmos, uns e outros, entre os alheios corpos das trincheiras percorridas.