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Para cada encontro, o prenúncio da não volta. Talvez, assim, melhor fosse. Não perder mais nenhuma casca. Parar a contaminação no meio. Deveriam resistir ao choque apenas para não abalar uma fundação caduca, mofada e sufocante. Ou então se camuflar nas beiradas, no seu devido lugar, onde as vontades ditas ilícitas devem ser escondidas conforme o manual dos bons costumes. 

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Haviam as feridas escancaradas de um amor não assumido. Uma britadeira que não para de furar em cima de mim. Ou uma marreta que continua batendo, não seguindo ordem ou ritmo, mas sendo presente nos segundos perdidos, de forma incessante. A verdade é que, às vezes, o som dá uma pausa. É o tempo em que produzo o autoengano confiante de que esses ruídos contínuos irão cessar. Logo o toc, toc, toc, volta. Ou aquele zunido estridente de broca furando veemente o chão que em seu exterior parece algo firme, mas se esfarela nas introduções densas da ferramenta. A reforma que não se conclui. Existe também aquele sentimento de medo, dor, angústia, carcomendo o peito toda vez que uma mentira é recém inventada para encobertar o que nós somos. Desamor. Julgamento. Não aceitação. Desmoronamento dos sonhos infantis daqueles que assumiram o papel de vital importância para o cuidado do pequenino ser. O projeto que não deu certo, depois de tanta dedicação, “afeto”, empenho e sacrifício. Aberração. Sapatão. Anormal. O preconceito exaltado em cada olhar dos mesmos que deveriam ser os primeiros a dar abrigo. Faltava o atrevimento de aceitar o risco e quebrar as estruturas vigentes. Quiçá, o guardar do segredo fazia com que a mágica entre nós durasse por mais tempo. Não éramos clandestinas. Todos os planetas que nos circundavam sabiam da existência da nossa colisão, porém o cerne, os familiares, estavam excluídos, impossibilitados de ver a beleza desse encontro. Nós duas, espelhadas nas nuances da retina invertida, exibíamos as sutilezas e as fragilidades aconchegantes. Acreditávamos no invisível. Entraríamos no lago, depois da tempestade, apenas para nos lembrar que ainda estávamos vivas, corajosas e impunes. Estaríamos além dos rabiscos antiquados daqueles quadros figurativos presos nas paredes das salas esnobes dos nossos familiares. Por ora, tínhamos apenas a minha cama e nenhum salva-vidas. 


Ela gostava de dançar. Costumava insistir para que a gente jogasse, aos sábados, o nosso corpo na pista movimentada mesmo com os constantes assédios hostis que recebíamos quando estávamos juntas nestes locais cercadas de álcool, substâncias ilícitas e pessoas atormentadas em dar qualquer sentido às suas breves existências. O beijo de duas mulheres numa balada era um convite pornográfico para os olhares machistas que estavam presentes no recinto, o fato de a gente ser um casal pouco importava. Nós já tínhamos sido casais de outras pessoas, digo, “mulheres de homens”, homens que tinham as suas “propriedades” respeitadas por outros homens, os mesmos que nos abordavam com olhares e falas cortantes. Parecia que precisávamos criar uma casca dura para lidar com as insistências nojentas e a falta de respeito completo que passávamos continuamente. Quem sabe tivéssemos que nos retirar dos locais que frequentávamos para nos restringirmos aos guetos já estipulados a aqueles que passavam pelas mesmas pancadas igualitárias. Contudo isso não ocorria. Não queríamos estar à margem. Pra gente, era relevante criar um questionamento nas proximidades que habitávamos, como quando a pedra é arremessada na água parada e a partir do choque entre as duas são formados humildes círculos concêntricos que aumentam crescentemente a ressonância corajosa da pedra que terá ao fim da trajetória o fundo do poço. 


A música tocava, a festa acontecia e, apesar do mundo, a gente se entregava. Também cozinhava, escrevia, trabalhava, brigava, chorava, trepava, fazia as pazes e a vida sucedia. Gastávamos o que podíamos uma com a outra: autores, restaurantes, exposições, teatros, filmes, festivais e aglomerações sinestésicas. Bolávamos viagens dentro da cidade reinventada, conhecíamos outros planos, pedalando nas bicicletas e também capturávamos os pedaços do sol antes de se despedir. Um ano, três anos, ou duas semanas, observávamos que o amor, como a morte, não compreendia um tempo mensurável em horas ou calendários.