Sem calçada, asfalto, concreto. Não há paralelas ou perpendiculares. O único caminho é o desejo. São os pés que transformam a terra. É o corpo que suja o barro. A força motriz do acaso. A cidade está à beira, o cimento fresco. Caminha-se para dentro. Ser a própria obra, criar a tua via.

Escute este capítulo

Imersão

 

Estou nua, a barriga enorme, andando por um campo circundado de pedras. Sobre as mesmas rochas, há um borrão verde que descortina vagarosamente copiosas árvores. Já aqui embaixo, piso num pasto desbotado, o capim me lembra o trigo: hastes longas, coloração bege e sabugos nas pontas. Vejo flores miúdas escondidas entre o mato, elas são tão ínfimas que eu certamente estou esmagando várias com as minhas pisadas. Há apenas uma estrondosa árvore no centro do pasto. Com o tronco bem grosso, firme, e um galho perfeito para prender um balanço, a árvore me chama. Sou acolhida pelas suas raízes, observo as folhas arredondadas, leves e abundantes. Ao lado da árvore tem uma fogueira ainda acesa, uma manta grossa e um galão de água. O céu camaleônico dança, sinto pontadas na espinha e também movimentos bruscos no abdômen, respiro profundamente. Algo desce do meu ventre, passo a mão, é uma gosma gelatinosa com alguns pontos de sangue. Sinto dores intensas que atingem as costas, as pernas e também lugares que eu não consigo identificar. Me viro para o fogo, o calor alivia as contrações. Toco na entrada da minha boceta e sinto a dilatação, o espaço aberto, a saída, o círculo de fogo. Os movimentos de força são involuntários, me sento de cócoras em cima da manta estendida ao lado da fogueira, emito sons primordiais, encaminho toda potência para pelve e sinto descer a bolsa inteira. Alcanço a plenitude. Pego em minhas mãos a cápsula, a rasgo delicadamente, o líquido quente derrama e sobre o meu colo tenho um pássaro brilhante. Apesar do recente nascimento, meu filho não se parece com um filhote. Ele é robusto, grande, se assemelha a uma águia, mas seus olhos são tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores. As penas que cobrem seu corpo são cintilantes, o tom da plumagem é avermelhado com partes puxadas para o roxo e também o dourado. Tem uma beleza sublime, exuberante, doce e, ao mesmo tempo, selvagem. O bico dele é longo e perfurado com dezenas de orifícios que o equipara a uma flauta encantada, percebo que cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela pra mim um segredo particular, sutil e profundo. O céu começa a desenhar uma mandala dourada sobre a minha cabeça, percebo que é o canto do meu filho que harmoniza a construção dessa formação geométrica. A mandala é composta de círculos múltiplos espaçados uniformemente, um circulo sobrepõe o outro, de modo que os mesmos formam uma flor no centro, em volta há mais seis flores simétricas, elas se multiplicam infinitamente conforme o timbre entoado. Aos poucos, a mesma forma se desfaz quando o pássaro para de cantar e o silêncio se apresenta. O sol começa a se esconder entre a fresta de duas rochas, meu filho abre as asas e nós iniciamos o voo. Começamos a nos embebedar nas nuances rosas, alaranjadas, turquesas, marinhas, roxas. Encontramos térmicas que nos dão impulso para subir ainda mais alto, paramos o nosso movimento e apenas sentimos o fluxo do vento que nos leva. Também perfuramos nuvens que nos abraçam com o frio gélido revigorante. Gosto de fechar os olhos e sentir o amontoado de fumaça agrupada, umedecendo a minha pele quando eu transpasso. Olho para baixo e percebo que estou em cima da cidade. As luzes lembram o esparramar de lavas vulcânicas, elas piscam, vibram e tecem a teia luminosa no meio do escuro. É uma ameba que tenta cada vez mais fagocitar o negrume que a cerca. Está viva e se movimenta. Tem agrupamentos bem marcados e também linhas finas que correm do centro para as extremidades. É no meio da concentração luminosa que eu enxergo a pequena ave brilhante de asas abertas, talvez seja o reflexo idêntico do pássaro que me trouxe aqui. Vejo o plano urbanístico desenhado pelos deuses arquitetos que abrigam a multidão sonolenta a qual eu também integro. Estamos presos nos blocos, nos corpos e nas camas. Desço pra perto das luzes, sinto o cheiro do asfalto, sobrevoo o jardim de tesourinhas, as vias desertas, percorro as siglas inventadas livremente. Os pardais estão abaixo de mim, vez ou outra dou um rasante e passo abaixo dos viadutos. Sigo até o lago que sussurra e me convida. Jogo-me nas águas, sou banhada pelo impulso de vida, lateja no centro do meu peito o amor real. Vem em paz, sem bifurcações, meandros ou edificações externas. Degusto incontáveis constelações estrelares e, enfim, a liberdade me alcança. 

Classificação indicativa: 18 anos

logo ilha design