Após se desfazer de toda pele, assume a posição da décima segunda carta do baralho, pendurada de ponta-cabeça num galho de uma barriguda florida, a mulher tece fios de seda e os emaranha em volta de si. Costurando a si própria, dando laços na carne exposta, a mulher sublima a dor e torna-se uma crisálida translúcida em um canto da cidade. 

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Suspensão

 

A brisa bate no corpo seco, estou no meio da quadra. Observo os caminhos do desejo que tracejam vias que não foram previamente planejadas. Compartilho tais solos. Quanto mais se anda, menos se é. Sento embaixo de um ipê, ele está com poucas folhas, essas morrerão para que a árvore se abra em flores amarelas, vire um buquê urbano digno de fotos e poemas. Os visitantes tentarão eternizá-la, mas ela própria entende que também não poderá se apegar às pétalas e, logo após as flores saírem, sentirá em seus galhos o desprender de cada uma delas que cairão lentamente, em espirais, dançando com a gravidade, em direção ao solo. A chuva de flores produzida pelo encantamento dessa soltura tecerá o tapete circular amarelado em volta da árvore, assim o altar estará pronto e as raízes - o início de tudo - receberão suas oferendas. É nesse cenário que removo a culpa, enxugo a dor que encharca o peito e agradeço o ocorrido. Aceito o que não me pertence, o que eu não controlo. Cuido das pequenezas entregues durante o percurso e, agora, volto a atravessá-lo sozinha. Ainda assim, anseio adquirir o dom de orquestrar os pássaros, mesmo crendo que a verdadeira harmonia aconteça no silêncio apenas. 


Não há ninguém do meu lado agora. Passo a mão na minha barriga e sinto o inchaço, os seios e a cabeça dolorida. Subo para o apartamento, vou ao banheiro outra vez, examino a calcinha: nenhum sinal do sangue que ultrapassou os 28 dias. Sentada na privada, relembro a sequência intensa de flashbacks, tento encontrar o momento que “isso” teria acontecido, mas mesmo com muito esforço, não consigo achar uma explicação plausível pra o fato. O reflexo no espelho exibe o meu descompasso, a imagem da loucura e garanto que, agora sim, todos podem me nomear por esse adjetivo. É diferente de quando nos acusam de uma maluquice débil apenas para desvalorizar as ideias e palavras proclamadas por uma boca feminina. Hoje me permito a insanidade diante da promessa criativa que se apresenta nesse banheiro apertado. Como será que os homens reagiriam se soubessem que tem algo crescendo entre as suas vísceras? Uma coisa que lhes sugará a energia, a liberdade, a vitalidade e que vai rasgá-los por dentro e por fora, não apenas quando for expulso, mas também depois, quando o peito do criador já estiver envenenado eternamente pelo apego à sobrevivência daquela pequenina criatura? 


Volto pro quarto, deito no meio da cama, coloco o quartzo rosa no chacra cardíaco, fecho os olhos e começo a me entregar ao sono. 

Classificação indicativa: 18 anos

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