Podada, cortada e lixada. Tomou banho de verniz para encobrir seus poros a tornando, num primeiro momento, impenetrável. Fixada com dois pregos grandes e profundos, foi acomodada junto a outras. Aceitou o molhar do lago, os pingos da chuva, o quente do sol, a ação do tempo. Mesmo puída, se mantém sendo ponte para os pés de antigos amantes. 

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Acabamento

 

O reencontro está marcado no píer ao final da tarde. Eu ando pelo deck de madeira desgastada, o sol está na beira do horizonte, as cores já se exibem, escolho meu lugar, estendo um pano e observo o lago. Escuto o barulho dos passos que se aproximam. Dois beijos rápidos no rosto e o terceiro, já na boca. A quem a gente podia enganar? Nossas línguas ansiosas saboreavam a saudade latente de três longos meses de separação. Tínhamos as mesmas bocas. Continuava com aquele brilho nos olhos, a voz parecia lamber as palavras que saltavam a cada momento, as mãos se entrelaçavam novamente. A gente vibrava o reencontro. O sol batia, de leve, na nossa cara e a erva queimada facilitava as respirações. Com a desculpa de um copo d’água entramos na minha casa. Vamos direto para o quarto, colocamos Janis Joplin na vitrola e rapidamente, a nudez decora o quarto. É nos pés que começamos a dança. A boca começa a chupar os meus dedinhos, caminha de forma delicada pelas pernas, coxas e seios, depois desce até a fonte e se deleita. Começa passar a língua em mim, como se cada lambida fosse uma homenagem ao que vivemos, faz questão de varrer todo o terreno e depois começa enfiar delicadamente os dedos. O som da água começa a brotar, escancarada, eu escorro. Cravo os meus dentes naquele pescoço, tento devorar o pedaço do passado, espalho a saliva por cada centímetro: boca, nariz, nuca, pernas, peito, mãos, costas, quereres. As pupilas se encontram, os corpos enlaçam. Escorregamos, mergulhamos, preenchemos. Minhas pernas se contraem com força e ressaltam a falta que me revira do avesso. Há um espelho no quarto que reflete a gente, sua condução com tamanha destreza, e eu, agrupada, encaixada, ofereço os meus buracos. Morde os meus braços, quer comer o cheiro familiar, engolir o gosto específico da intimidade. Conjugamos, sem dar importância ao tempo verbal, às antigas imagens exibidas sobre a cama e ao último gozo, é da verdade que a gente se lambuza. Certifico que não podemos mais repetir a mesma cena. Apesar de o regalo salivar a boca, essas esporádicas refeições que degustamos em conjunto são partes do desmame necessário para o fim. A lua minguante risca o céu. Esse minúsculo sorriso que vejo sumirá nos próximos dias e serei banhada por uma ausência fictícia desse pedaço de pedra romantizado que circula a Terra. No espaço, ela continua cheia, gorda, imensa, sem variação, mas aqui - por sorte – há o balanço que traz a negra noite e reinicia um movimento que chamamos de Revolução. Se os postes tivessem interruptores, eu os apagaria para aspirar a escura revolta. Poderia alinhavar as estrelas, vivas e mortas, fiando outras constelações e criar assim aspectos mais favoráveis para a batalha constante. 

Classificação indicativa: 18 anos

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