Venceu o pavor da morte quando se apaixonou. Olhou aquela miudeza que antes chamava de vida e vislumbrou a grande descoberta. Havia duas coisas valorosas: o amor e a perda. O amor não garantia a felicidade, mas a constatação de que algo vivia. Já a perda existia somente para que o amor conhecesse sua própria profundeza. Quando chegou na entranha do sentimento decidiu cortar os longos cabelos e caminhar em direção ao sol. 

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Descida

 

Chego em casa. Não tranco a porta. Acendo uma vela e dou boas baforadas, deixando que o remédio faça efeito. Defumo a casa. Limpo o que sobrou da balada em mim. A carência se espalha sobre o lençol amarelado. A boca clama a língua ausente – Eu te amo – ainda escuto o balbuciar da grave voz. Recordo o pau latejando dentro de mim. O desnecessário experimento de transformar aquele corpo em permanência, o mesmo que se desprendeu, que solicitou que eu o soltasse. Lembro dele virando para o outro lado enquanto eu mordia forte suas costas, querendo engolir as sobras que conseguia até a próxima despedida. Ele afastava a minha boca ainda suja de porra com medo que eu me apropriasse do brinquedo. Espiava seu leve sorriso pós coito com a dúvida se este tinha o gosto de satisfação ou sarcasmo. Ele dosava apenas o necessário para que eu não desfalecesse, para que o sabor virasse saudade, para que eu continuasse presa aos pés da cama. Ele se levantou, saiu e deitou em qualquer outro lugar. Seu cheiro permaneceu na parede, na cadeira, no taco do chão. 
O sorriso dela é uma das coisas mais preciosas que eu conheço. Os olhos são grandes, esverdeados, atentos. Tem uma força feminina que me faz desejar ainda mais estar do seu lado. Existe uma paciência que deixa tudo que Ela toca bonito, é um condimento raro que só pessoas que entenderam o valor do tempo conseguem adquirir. É de uma generosidade e amor incomensuráveis. Cuida das escoriações com chocolate, traz vinho tinto e me abraça. Faz um chá forte de camomila, pede para que eu jogue no corpo inteiro após o banho, me aplica uma massagem longa e depois coloca entre os meus seios o quartzo rosa que Ela trouxe de um desses lugares hippies. Liga a antiga vitrola, coloca o som do Ravi Shankar, solicita que eu feche os olhos e desaparece. A vibração do dedilhar do músico no seu instrumento é curso para a água salgada percorrer o meu rosto durante um pedaço da noite. Depois Ela retorna, traz caldo de abóbora com gengibre, algumas torradas e também pedaços de queijo artesanal de búfala. Ela é a minha melhor amiga, é a mulher que eu amo. 


Se você anda descalça vai sujar os pés. E de que serve o caminho se você não pode se contaminar? É preferível limpar a lama mais tarde. Para calos, água quente. Vamos subir juntas até o alto da montanha? Você quer fincar uma bandeira? Não, apenas ver a vista. Seguimos ao céu. Evitamos olhar pra baixo. Tropeçamos em pedras soltas. Beijamos o desafio. É preciso entrega para se lambuzar na delicadeza. Subimos muito. Equilíbrio e euforia. O tempo necessário pra saborear cada parte do caminho. De uma, da outra. Não houve pausa. Nem pressa para chegar ao topo. Risco também é impulso. No ápice, sentamos de frente. Enxergamos os detalhes. As cicatrizes nos pés certificavam a longa jornada. Não era o todo que impressionava, mas as pequenezas somadas. A experiência percorre os poros. Já não sabíamos qual era o gosto do nosso próprio nome. A aventura mistura, pertence. Ficamos paradas. Quatro voltas do sol. O mundo seguia. Era necessário descer. Como deixar as nuvens? Lá embaixo ainda há céu. Estamos contaminadas pelo tempo, usamos as mesmas expressões. Nos percebemos quase irmãs. A montanha no mesmo lugar. E assim, preferimos descer separadas.


Sou rocha trincada. Corroída. Putrefata. Tudo é passagem agora e eu, inutilmente, procuro segurar o que escorre das minhas mãos. Quero parar o fluxo do rio. Os fins se repetem. As palavras, as relações, o “eu te amo”. O que me pertence de verdade? Profundo silêncio. Fios de cabelo no chão. Quantos cairão até o final do último parágrafo? Celebro o ato de descamar. Um pedaço de pele. Um pedaço de unha. Um pedaço de palavra. Esfrego a minha morte enquanto tomo banho. Retiro o cheiro, disfarço o gosto, camuflo o medo. Os pormenores devem ser abortados até que tudo vire ausência e o acaso me transforme em lembrança. Eu peço para que, em breve, não haja mais chão. Nem buracos. Nem padrões. Tento dar o primeiro golpe, sinto a proximidade do instante de coragem que antecede a tempestade, a colisão de mim. Eu queria ser aquela mulher que se atirou na frente do carro em plena W3. Vou até a cozinha e engulo outro passiflora. Recalculo os passos que me afastam dela, repenso a individualidade antes tão almejada, esqueço certezas, as decisões consensuais. Sou carrasca da própria dor. Cogito dar outra chance para a mesma história e procuro um final plausível. Volto a ter quinze anos. Relembro os encontros diários encharcados de intimidade, as bocas e bocetas se agrupavam “sem querer”, espasmos involuntários. Vislumbro Ela dormindo na antiga cama. Esbarro nos mesmos preconceitos velados, nas vontades já descobertas. Meus hormônios saltam enquanto escuto o choro de um bebê na varanda da vizinha. Releio textos feministas, discorro sobre o tema. Posto nas redes sociais qualquer coisa sobre liberdade que li na página de um pop guru. Dou voltas de bicicleta, recito uma poesia dentro da passagem subterrânea. Tento encontrar o pouco de mim que resta sem Ela. 

Classificação indicativa: 18 anos

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