Sem backup. Erro qualquer no sistema. Mais um. A mulher perde a última foto do pau dele. O ângulo perfeito do que realmente foram: pau no primeiro plano, gigante, com as veias saltadas e o homem, ao fundo. Ás vezes, a personagem revisitava a imagem na premissa de querer sentir novamente o cheiro, o gosto, o diâmetro. Hoje, em uma simplória transferência de dados, a tal foto sumiu nas nuvens.

Escute este capítulo

Solidão

 

Estamos deitados na cama dele. Ela está ausente. Eu que nem gosto tanto de aglomerações vim ao encontro dele numa festa e, depois de todos os rituais sociais noturnos, estou aqui: um tanto bêbada, sensível e ociosa. É nítido que Ele finge dormir ao meu lado. Há um desassossego em mim. Começo, devagar a tocar no rosto dele e, aos poucos, encosto o resto do corpo, tento impor o sexo, não pela ação em si, mas por querer arrancar algum afeto que certifique que Ele ainda está jogando comigo. Eu insisto até quebrar o inalterável. Ele abre os olhos, levanta da cama, volta a sentar, toma coragem, me encara. Uma longa pausa. Facas cortantes adentram o alvo: declama o fim do tesão, a falta de vontade, o cheiro desagradável, o toque que fere, a pressão que é estar comigo ao seu lado. Ele descarrega, despedaça o derradeiro tijolo. Há um monólogo inteiro dentro da cabeça, mas estou calada. Encaro fixamente aquele estranho e ele, muitas vezes, desvia os olhos, solta frases feitas e elogios débeis na tentativa de suavizar o talho das sentenças atiradas. Enceno uma cena clichê de novela mal escrita. Vou até o banheiro, abro o chuveiro e derramo as lágrimas que talvez Ele merecesse assistir. Volto pro quarto, arrasto o silêncio, observo a cor do céu, escuto o som do sol que sai, visto as roupas, o homem me leva até a porta e eu desço as escadas. 
Estou no meio da quadra, grandes árvores me cercam, estou minúscula. Sinto gosto de guarda-chuva na minha boca e a cabeça palpita. Tento me escorar. Penso nela. A paisagem bucólica me testemunha, assim, andando para nenhum lugar. Alguns corpos passam, embrulhados numa versão esportiva em direção ao parque que fica próximo daqui. Me equilibro em cima das botas de couro, tentando dialogar com o oco que grita. Estou com um corte vertical no meio de mim, entre o seio esquerdo e direito, o buraco é fundo. Depósito esvaziado. Pequenino espaço frágil empesteado do futuro que não aconteceu. Sou levada pelo instante. Alguns blocos reformados refletem o céu de brigadeiro em suas janelas de vidro fumê, os prédios parecem estar disfarçados de shopping centers e também refletem a cafonice da classe média. Tropeço na calçada que está toda trincada por raízes que vagarosamente quebraram o cimento imposto, deixando transparecer a rebeldia antes encoberta. O eixo que corta a cidade se descortina aos meus olhos e se mostra quieto, calmo, descansado. Nenhum carro se atreve a interromper o retiro meditativo semanal da maior entidade da urbe. Há apenas algumas bicicletas e aqueles mesmos corpos mencionados anteriormente que se multiplicam nos dias de domingo. Aqui também estou eu, com o gosto e aparência de ontem. Percebo a oportunidade de fazer da minha travessia uma liturgia cinematográfica: então tiro as botas, encosto os pés no asfalto ainda frio, fico parada algum tempo até que começo a cerimônia de tatear com a pele nua o sacro asfalto. Com movimentos lentos, tento eternizar oração criada para esse eixo que é beijado mais por pneus do que por pés libertos. 
 

Classificação indicativa: 18 anos

logo ilha design