Classificação indicativa: 18 anos

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Os olhos brilham e as pupilas aumentam, a boca enche de saliva e o coração dispara. A descarga de adrenalina deixa o corpo atento, vivo, sedento. O cheiro da presa perfuma o ambiente e o predador sorri. O desejo não é apenas destroçar o bicho, ouvir o “crec” dos ossinhos e sentir o gosto de carne fresca na boca. É a aventura em si que move o predador: quanto mais acirrada a disputa, a ânsia pela vitória aumenta.

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Tremores

 

Ela inicia um novo romance e, cheia de pausas, se afasta sorrateiramente de mim. Está trancada em casa, rodeada de sinônimos e sujeitos ocultos, na dedicada imersão que abarca a confecção de novas metáforas. Eu me encontro remoída pelo temor da troca, do esquecimento. Aponto meus defeitos enquanto enalteço uma rival desconhecida. Respiro profundamente. Busco uma confiança sonsa. Tento aceitar a breve interrupção do caminhar diário em conjunto, a separação necessária das pilastras para que o templo continue suspenso, abençoando as nossas cabeças. O vão também é uma pequena permissão para me deleitar nas descobertas do outro lado, auscultar o bater diferente do meu seio esquerdo e tentar me aprofundar nos meandros do masculino. Ele traz certa praticidade em suas falas e ações, descomplica as minhas sensibilidades transformando-as em matemáticas simplórias e outras vezes, testa as velhas convicções que me acompanham, colocando em xeque-mate algumas das minhas hipocrisias. Ele é um provocador e sabe apertar o ponto certo para me tirar do prumo. Eu gosto de observar a maneira que Ele celebra, comete excessos e sorri facilmente. Tem um descuido na fala que vez ou outra soa como grosseria, mas que Ele logo contorna com alguma piada ou um beijo de desculpa. Eu me deixo ser desviada pela sua presença e visto a venda que cobre os olhos dos enamorados. 


Sou permeada pela saudade de estarmos os três juntos novamente. Recordo a aventura de procurar posições agregadoras que contemplavam os nossos corpos inteiros. Antes não havia a necessidade de fazer escolhas ou encaixar agendas lotadas, o interesse era o mesmo em todos os vértices do triângulo. Mas atualmente Ela evita a aproximação quando Ele está perto, e eu continuo suplicando sua companhia numa insistência quase egoísta, tentando retomar algum desejo dela pela antiga brincadeira. Ele também almeja que Ela aceite sua presença com um sorriso apaixonado, mas isso não se dá. Ela parece não suportar mais aquela conjectura quase imposta, debate-se cada hora mais forte querendo se libertar, no entanto, a cada fuga dela, a excitação dele se exacerba e assim, a perseguição permanece. As investidas dele também são inúteis. Ela atira ferozmente uma taça de cristal que leva nas mãos contra a nossa edificação e redecora a sala com pedaços de vidro transparentes, cortantes. Apenas o pé da taça fica inteiro, as outras partes pontiagudas estão espalhadas pelo chão. Há uma mancha maior, de vinho, redonda e rubra, que certifica o bonito arremesso daquele objeto no concreto cinza. O som trincado, suspenso. Algumas gotas mais fortes cobrem o piso, e as linhas tingidas na tela formam pequenos caminhos interrompidos, como quando se falta ar pra completar o trajeto e os traços morrem antes do fim. Vejo um quadro do Pollock. A agressividade implode dentro de mim e exibe a total falta de controle que tenho perante os personagens da minha história.