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Duas linhas perpendiculares. Elas formam um ângulo reto. A geometria usual, comercial de margarina, pilar da propriedade com direito a herança, benção do padre, olhares orgulhosos. No modelo almejado não há espaço para outras intercessões. As alterações ou ramificações ficam proibidas. Digo, assim, à luz do dia. Demais linhas não devem entrecortar o ângulo reto. Curvas não são permitidas. É o marco zero, aquele que abre espaço, divide em dois eixos, são duas faixas que se cruzam.

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Ela

 

O dia abre e Ela me convida pra ficar ao seu lado. O sol bate nas curvas dos longos cabelos ruivos que contrastam com a pele clara dela, os olhos esverdeados trazem o frescor da curiosidade típica dos visitantes de países esdrúxulos. Suas mãos são grandes, fortes e femininas. Tem a minha estatura, só que as pernas são finas e os seios menores - esses são do tamanho exato da minha mão. Gosto da cintura. Talvez seja o que mais se difere de um homem. Não é um corpo quadrado, musculoso. Tem essa quebra suave no meio e a dobrinha da cintura que dá vontade de morder. É um tecido adiposo, acolchoado, semelhante ao meu. O abraço vem coberto de uma textura macia, da voz aguda e de um curvo formato. 


Foi num sarau dentro de uma passagem subterrânea que a conheci. O idealizador era um amigo arquiteto que revisitava espaços urbanos e criava lugares de deleite. Era admirável ver aquele túnel cheio de artistas celebrando o atento instante de desvio. Antes, rolava uma comoção para limpar o local, conseguir energia, colocar mais arte nas paredes, convidar os músicos - pormenores feitos sem nenhuma autorização institucional-, transformando a ocupação em um evento ainda mais fabuloso. Em cima da gente, os eixos rodoviários, carros passavam velozes e não percebiam a poesia brotando debaixo da terra. Assim era a nossa cidade: o povo caminhava escondido em buracos de formigas, enquanto os carros desfilavam em largas ruas. 


Eu recitava um poema erótico sobre a relação de um homem e sua amante, tinha os lábios pintados de vermelho e no microfone as palavras eram exibidas sem nenhum embaraço. Ela me olhava, escutava a poesia, fascinada. Após dois anos, o primeiro beijo aconteceu. Estávamos numa fila gigantesca, dentro de um banheiro imundo, em pleno carnaval. Fiz o convite de entrarmos juntas na cabine, para que fosse mais rápida a nossa ação ali dentro e pudéssemos voltar logo para o bloco que atravessaria a tesourinha. Foi nesse pequenino espaço de tempo, que Ela encostou, de forma delicada, os seus lábios nos meus, e as bocas entreabriram-se, aceitando o movimentar languido das línguas, o dançar lento das salivas que saboreava a mistura recém descoberta desse beijo entre amigas. Éramos confidentes. Tínhamos passado por situações semelhantes. De família abastada, convivendo com as opressões típicas desses clãs, encontramos na escrita a possibilidade de incorporar nossa revolta e clamar por uma pequena liberdade. Sair um pouco do que foi destinado a uma menina que nasce em “berço de ouro”. Talvez, para alguns, apaixonar-se por uma mulher também fosse mais um passo dessa rebeldia burguesa. Não que eu acreditasse nisso. Preferia ter a permissão de não seguir nenhum “padrão”, romper os limites preestabelecidos e ter audácia de fazer uma trilha desconhecida de pés descalços. 


Eu andava de peito aberto nos precipícios. Ela me acompanhava. O jogo também se invertia. Havia o crescente desejo de estar cada vez mais imersa nessa história. Parecia que qualquer encontro virava epifania ao lado dela. Eu não tinha ideia do que era amar uma mulher. Todas as minúcias que incluíam estar entregue ao feminino. Os laços dados de maneira sutil que rapidamente viravam nós. A cumplicidade, o sangue que se encontrava, as roupas misturadas. Muitas vezes, estávamos vestidas iguais par de jarros. Era engraçado se encontrar e perceber o quanto dela havia em mim e o quanto de mim havia nela. 


Ela suga e beija as bocas (de cima, de baixo), desliza a língua nos pentelhos, desenha uma rota na virilha, chega até a coxa esquerda medindo categoricamente o local que deposita a sua mordida, escutando o meu grito rouco. Com uma corda preta, Ela amarra as minhas mãos na cabeceira da cama, solta o lenço azul de seda chinesa que prende delicadamente seus cabelos e envolve nos meus olhos que estão ligados em toda a sua partitura corporal. Ela brilha. Conceitua o nosso amor dentro do meu ouvido. Começa a sorver o pescoço por cinco longos minutos enquanto as mãos tocam de forma gentil os bicos dos seios, vai derramando saliva durante o trajeto que sai de uma extremidade a outra, passa pela barriga e chega à entrada da boceta. Os dedos médio e indicador são introduzidos no ângulo de 90 graus tocando o ponto descoberto dentro e, com o polegar Ela esfrega delicadamente o clitóris que começa a ficar mais rígido, inchado, molhado. Meu líquido viscoso é derramado sobre os seus dedos e, aos poucos começa inundar as suas mãos e molhar o colchão. Ela me bebe suave pela beirada, dobra a língua, passa o freio dessa mesma língua em mim, sem pressa, com capricho. Depois acomoda seu corpo e dança a voz feminina de uma cantora antiga de jazz em cima de mim. Após o ato, ficamos quietas, embriagadas de silêncio, apenas nós duas. É como se ali não estivéssemos, como se o quarto não fosse. Mãos enlaçadas, respiro suave. A intimidade encharca. Ela desamarra o lenço e permite que os olhos se encontrem, neles há um medo do que virá depois. Parece que qualquer movimento realizado pode atrapalhar a totalidade alcançada. Desenhamos formas abstratas no ar, mas duvidamos de alguns traços. É preferível se manter alheia a qualquer possibilidade de futuro, ficar ali e esquecer os oráculos definitivos. 

Classificação indicativa: 18 anos

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